Dissonância

Updated: Feb 15, 2021

A arte pode ter efeitos interessantes sobre quem somos e em quem nos tornamos.

 

“Bom dia, Pedro. Aguarda só um pouco – o Doutor Lucas já te chama, está bem?”


A assistente sorriu-lhe: aquele sorriso que mistura benevolência e compaixão, polvilhado aqui e ali por pedaços triturados de pena.


Ele sorriu-lhe de volta – aquele sorriso que mistura compreensão e um pouco de atracção, com algumas partes de aborrecimento.


Não é que ele fosse louco só por ter uma consulta com um psiquiatra; não é que fosse assim tão diferente das pessoas que o rodeavam. Mas compreendia que não era igual a todos aqueles que por ele passavam na rua, ou que entravam ao mesmo tempo que ele nas carruagens do metro.


Acenou, e dirigiu-se para uma das cadeiras na sala de espera — afastado da televisão, desta vez.


Desde que começara a ler American Gods, de Neil Gaiman, que tinha um pouco de aversão aos novos Deuses – as televisões, notícias, e Instagrams deste mundo. Daí que tivesse começado a reduzir a exposição a esse tipo de ocupações, ao pão atirado às massas para as distrair do que se passa nos bastidores do circo.


Enquanto se sentava, olhou a parede à sua frente, onde estava pendurado um quadro que vira, mas nunca processara – como se desaparecesse do campo de visão dele sempre que se focava na televisão.


O quadro era caos. Caos de linhas pretas e brancas, de tinta preta sobre o branco pérola do papel. Caos ausente de linhas rectas, artificiais – tudo tinha um tracejado orgânico. Mãos como se a juntar-se em oração, que arrancavam fios de pensamentos de uma cabeça tríplice ou quadrúplice; os pontos de tinta dispersos numa ordenada fúria criativa. Mesmo as gotas em excesso que haviam escorrido pelo quadro faziam-no em curvas simples e fácticas, honestas, naturais.


O quadro era dissonância; de pensamento e de vontades, um indivíduo dividido entre quem é e o que foi ou poderia ser; entre o que quer, o que pode alcançar, e o que nunca será seu. Entre as certezas e as dúvidas das linhas, aquele homem tentava arrancar-se àqueles fantasmas dilacerantes do eu, as sobreposições do id e do ego e do superego que lutavam pelo controlo do ser.


Ficou a olhar para o quadro durante uns momentos, absorvendo os pormenores da imagem, estabelecendo os paralelos óbvios entre o que via e o que sentia, entre quem pensava ser e quem o quadro lhe mostrava ser.


Tirou o bloco de notas que tinha no bolso do casaco castanho coçado, e encontrou a caneta de tinta permanente que pertencera ao avô. Esboçou um ou dois olhares de ensaio ao quadro antes de começar a escrever.


Vejo-me no quadro como me vejo ao espelho, por vezes. Não ao espelho do meu quarto - onde vejo se estou vestido de forma socialmente aceitável. Onde verifico que as etiquetas da minha alma estão escondidas sob a camada do que esperam e querem que eu seja. Nem sequer como sou no espelho da casa de banho, onde vejo os meus olhos injectados de sangue ao acordar de mais uma noite. Mais uma noite que pouco fez para aliviar o peso do cansaço que trago ao peito, e nos ombros, e na cabeça, e nas pálpebras.


Não. Vejo-me no quadro como no meu quarto, de porta fechada e olhos fechados sobre ela, em silêncio absoluto e escuridão pacífica.


Sinto-me desgarrado, sem fundo; como se me tratasse de uma bola de futebol pontapeada na superfície da lua, sem ferros ou peso ou gravidade suficientes para me ancorar ao mundo e a mim mesmo – dividido entre os ecos dos pensamentos que já não tenho a certeza serem só meus... embora saiba que todos começam em mim.

Nunca me encontro em silêncio, nem aqui. As vozes certificam-se disso. Mas é aqui que consigo esconder-me dos restantes ruídos da civilização – dos risos e dos gritos, dos anúncios para beijar a felicidade, das buzinas de impaciência, dos gritos de dor da vizinha Andreia, dos gemidos de prazer mal contidos da minha irmã quando se fecha no quarto com o namorado.


Aqui, não ouço nada tirando as minhas vozes.


Ponho as mãos à cabeça na escuridão e imagino que consigo sentir as consciências dissidentes, dissonantes, que me preenchem quando vejo o estado do mundo à minha volta; o materialismo, os jogos e xadrez de interesses, a despreocupação com o planeta e com as pessoas. O “umbiguismo” que sobressai em todo o lado, nas conversas de café, na entrada para o metro, nas conversas televisivas, no uso e no abuso do sangue, suor, sexo e lágrimas em busca de atenção e espectadores. Consigo senti-las, apalpá-las, a estas consciências de aparência humana mas consistência de lodo, de um ser anelídeo que se contorce sob a terra putrefacta, sinto-os e de um momento para o outro aparecem-me arames de aço nas mãos, cabos finos e afiados que se enrolam à volta dos meus pulsos das minhas palmas dos meus dedos, e destas consciências que me amaldiçoam as horas de luz e de sono.


Começo a puxar, devagar; sabemos todos que o tratamento ideal nem sempre é a amputação, mas sim a drenagem, a limpeza do local infectado – antes de tomar a decisão drástica de amputar o membro para salvar o corpo.


Claro que quando o membro infectado é a minha mente, a amputação nunca será uma hipótese com um final feliz.


Assim, aperto e puxo com cuidado; sinto as vozes invasoras a elevar-se, em revolta contra o conforto do meu corpo, do castelo tomado, que as abandona - a comprimi-las em força e metal purificador; as ameias a tombar sobre o pátio.


Os meus dedos latejam nos arames; preciso de exercer mais força do que a resistência da minha pele, e sinto o metal a cravar-se através da epiderme, da derme e da hipoderme, deixando um rasto sanguíneo atrás de si, até me atingir e rilhar os músculos. Continuo a puxar, e sinto a pressão à volta da minha cabeça a afundar-se, a apertar-se sobre os outros eus que nada têm a ver comigo.


Sinto-os a afastarem-se, à medida que o arame se enterra mais profundamente à minha volta; sinto-os arrancados, para um e outro lado de mim, enquanto olho para onde deveria estar o tecto do meu quarto. Sinto-os despertar e agarrar-se a mim, olhando-me e aos arames que os envolviam como se eu fosse Phlegyas, como se o barco da minha mente fosse a única coisa capaz de os salvar do Styx. Apertam-se contra mim, tentam fixar os olhos nos meus, e sinto-lhes as mãos que se agarram às minhas roupas enquanto são lenta mas inexoravelmente arrancados do espaço, do ser, da alma que sou eu e que nunca deveriam ter saboreado.


Pergunto-me, antes de dar o puxão final, cirúrgico, que parte de mim restará – o que terão eles devorado da pessoa que eu fui, e o que restará no lugar que eles ocuparam.

Valerei agora apenas um terço do que valia? Serei, talvez, metade da pessoa que era? Quem serei eu, sem as vozes para me amaldiçoar, para me guiar? Quem serei eu, quando novamente for senhor de mim próprio?


E numa fracção de segundo, enquanto ouço os gritos deles a invadir-me e logo de seguida a abandonar-me, puxo os arames; sinto o sangue quente a pingar-me dos dedos e a escorrer-me sobre as pálpebras e bochechas, a comichão dos carreiros que traçam. A pressão na minha cabeça abandona-me. Sinto e ouço um rasgão que domina o silêncio do mundo real.


E de repente, a minha mente fica igualmente silenciosa.


Ele riu-se, quando acabou de escrever. Começou com um sorriso, leve, que se desenvolveu até se tornar uma pequena gargalhada, controlada na surdez da sala de espera. Elevou novamente os olhos para o quadro, e voltou a olhar para baixo, para o que escrevera.


“Pedro, o Doutor Lucas vai receber-te agora.”


Levantou os olhos para a assistente, que lhe sorria novamente aquele sorriso. Acenou e levantou-se, caminhando em direcção à porta semiaberta onde o esperava o médico.


Quando se sentou na poltrona em cabedal negro em frente ao Doutor Lucas, que o olhava silencioso e com um sorriso acolhedor, riu-se internamente com a ideia de o Doutor esperar mais uma sessão como todas as anteriores – em que se sentavam em silêncio, frente a frente, um esperando que o outro quebre e fale, o outro esperando nunca quebrar.


Mas hoje, seria diferente.


“Quero mostrar-lhe uma coisa”, foram as palavras do Pedro, enquanto se inclinava e lhe passava o bloco de notas. Nas mãos dele, viam-se cicatrizes finas como se ramos de uma árvore morta.


Esperou, ponderando os efeitos que um quadro pode ter na vida de uma pessoa.



 

Escrevi esta curta muito para trás no tempo - a 30 de Junho de 2015 - baseado na arte fantástica no topo da página. Foi-me mostrada a imagem como mote, e o texto apenas... Fluiu.


Tinha acabado de ler o romance American Gods há bem pouco tempo, o que explica a aparição de Neil Gaiman.

 

Texto por Francisco Alexandre Pires

© Francisco Alexandre Pires

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